1963_Verdes Anos (crítica ao filme)

Verdes Anos (1963) é um filme de Paulo Rocha que reflete a sociedade portuguesa dos anos 60 sob um novo olhar. Um olhar desinteressado que vem expor uma sociedade que de repente se confronta com um amplo movimento de fuga e abandono da vida rural. Estima-se que entre 1951 e 1964, no mínimo, 1 300 000 rurais terão abandonado o seu meio de residência e trabalho em busca de uma vida melhor. O título por si só sugere já o retrato de uma mudança. Uma geração que de repente cai na cidade e tem de se adaptar a um novo estilo de vida.  Mas esta mudança não se prende apenas com a temática. Nota-se também através da nova forma de filmar: os movimentos de câmara, a plasticidade dos planos, as pausas, os tempos. Um filme despido de efeitos com uma narrativa simples, diálogos informais e uma técnica natural.

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1968_ PIDE proíbe homenagem a Martin Luther King

luther king lisboa

4 de Maio de 1968. Iria tomar lugar uma homenagem a Martin Luther King, após um mês da sua morte. Num salão de uma igreja de Lisboa, estava planeada a projecção do filme «Marcha em Washington».

Na véspera, a PIDE proibiu a sessão. Mas à hora marcada concentraram-se centenas de pessoas em frente da igreja de portas fechadas. Como em muitas outras ocasiões, tudo acabou com dispersão, à força, desta vez por agentes da polícia à paisana.

Foi depois elaborado, e amplamente distribuído, um folheto intitulado «Porquê?» com um breve relato dos acontecimentos. Terminava com uma citação do próprio Luther King:
Não vos posso prometer que não vos batam, 
Não vos posso prometer que não vos assaltem a casa, 
Não vos posso prometer que não vos magoem um pouco. 
Apesar disso, temos que continuar a lutar pelo que é justo.

1968_ Por cá também tivemos a nossa Primavera

Setembro de 1968. Uma cadeira pôs fim a décadas de salazarismo e um discurso de Américo Tomás deu início ao marcelismo.
No dia seguinte, às 17:00, tomou posse o novo governo e começou a chamada «Primavera Marcelista». Do discurso de Caetano, o país reteve uma frase e uma palavra para muitos até então desconhecida: «Não me falta ânimo para enfrentar os ciclópicos trabalhos que antevejo.» Os ciclópicos seriam, de facto, os cinco anos e meio que se seguiram. «Primavera Marcelista» designa o período inicial do governo de Marcelo Caetano entre 1968 e 1970, no qual se operou uma certa modernização económica e social e uma liberalização política moderada, criando a expectativa de uma verdadeira reforma do regime em Portugal, mas que não chegou a acontecer.

1968_ O ano dos protestos estudantis

2 de Outubro de 1968. Plaza de las Tres Culturas (México). Terminou um movimento dos estudantes mexicanos, que durou 146 dias. Aproveitando a realização dos Jogos Olímpicos na capital do país, tinha-se procurado chamar a atenção do mundo para a corrupção do poder e o autoritarismo do Partido Revolucionário Institucional, no poder durante mais de setenta anos. «Não queremos olimpíadas, queremos revolução», gritava-se entre muitos outros slogans. Acabou por ser o único movimento estudantil da época, que terminou com vários mortos, 44 «documentados» e mais de 300 reivindicados pelas famílias. fonte

2 de maio de 1968. Paris. Estudantes franceses da Universidade de Nanterre fizeram um protesto contra a divisão dos dormitórios entre homens e mulheres. Na verdade, esse simples motivo vinha arraigado de uma nova geração que reivindicava o fim de posturas conservadoras. Aproveitando do incidente, outros universitários franceses e grupos político partidários resolveram engrossar fileiras dos protestos contra os problemas vividos na França. Com a cobertura televisiva, o episódio francês ficava conhecido pelo mundo. O movimento de maio de 1968, na França, tornou-se ícone de uma época onde a renovação dos valores veio acompanhada pela proeminente força de uma cultura jovem. A liberação sexual, a Guerra no Vietnã, os movimentos pela ampliação dos direitos civis compunham toda a pólvora de um barril construído pela fala dos jovens estudantes da época. Mais do que iniciar algum tipo de tendência, o Maio de 68 pode ser visto como desdobramento de toda uma série de questões já propostas pela revisão dos costumes feita por lutas políticas, obras filosóficas e a euforia juvenil. fonte

 

Antes do mais, o medo é a impotência sobre o futuro. É a admissão de que o presente é inalterável. É crer que a vontade e a acção nada podem sobre as circunstâncias. Quem tem medo não tem confiança na eficácia das suas tentativas para transformar o mundo; submete-se a ele.(…) Se tem medo, se tem muito medo, aja. E o medo morrerá

(in “Unidade Estudantil”, edição das Associações de Estudantes de Lisboa, n.º 7, Março de 1965)

1962_ Testemunhos da Crise

Lutemos com unidade pela nossa autonomia – bis
Que para a Universidade há-de vir um novo dia

(do Hino do Estudante – 1962/65)
A crise académica de 1962, que durou vários meses, com greves às aulas, prisões de estudantes, manifestações e cargas policiais, abalou o regime ditatorial. O clima de tensão entre os estudantes universitários e o Estado Novo foi-se agravando. Mesmo sob proibição, as associações académicas assinalaram o Dia do Estudante a 24 de Março, uma iniciativa impedida à lei da força pela polícia. Segue-se um conjunto de depoimentos em primeira voz de alguns participantes da Crise. Todos os testemunhos foram recolhidos pela Fundação Mário Soares, em 2007, a propósito do 45.º aniversário da Crise de 62.

 

José Augusto Rocha
Director da Associação Académica de Coimbra, em 1962

“Penso que o que marca fundamentalmente e caracteriza a crise académica de 62, é ela ser um movimento nacional de estudantes e não um movimento associativo ao nível das várias cidades universitárias. […] Eu tenho para mim que o acontecimento mais importante desta crise é a realização do primeiro encontro nacional de estudantes, que acaba por ser proíbido. E na sequência dessa proibição vem um conjunto de outras proibições, entre elas o dia dia do estudante em Lisboa no 24 de Março.”

Rui d’Espiney

“Um dos elementos que acabou por despoletar todo o movimento estudantil, nomeadamente em Coimbra, é a chamada carta Carta A Uma Jovem Portuguesa de Marinha de Campos. […] Hoje é uma carta quase inócua, um documento que é perfeitamente datado, mas na altura significou um profundo abano na medida que mexia estruturalmente num tipo de postura dos jovens. [..] As raparigas começam a aparecer nos cafés e a fumar. […] Um período em que o que é extraordinariamente condenado pela moral social, é uma altura em que há um conjunto de afirmações de independência por parte dos […] estudantes universitários.”

Maria João Gerardo

“Gostava de chamar à atenção para a acção de um sector que quanto a mim tem vindo a ser muito esquecido, mas que tem um papel fundamental ao longo da crise académica de 62. E estou a falar do sector da propaganda. Os comunicados que foram sendo distribuídos ao longo dos meses, quase diariamente, traduziam o trabalho muito duro de toda uma equipa que passava noites sem dormir para que esses pudessem estar nas mãos dos estudantes às primeiras horas dos dias seguintes. Era um processo muito complicado e que envolvia alguns riscos.”

1961_Carta A Uma Jovem Portuguesa

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Escrito por Artur Marinha de Campos
Publicado em Via Latina
19 de Abril de 1961

Integrou-se num momento de contradições e de mudança a polémica vivida no ano de 1961, entre os estudantes universitários de Coimbra, a propósito da publicação, nas páginas do jornal académico Via Latina, da “Carta a uma Jovem Portuguesa”. A discussão então lançada plasmou contradições que se vinham revelando na sociedade portuguesa e, ao mesmo tempo, integrou reflexos que ultrapassavam largamente tanto a cidade quanto o próprio ambiente estudantil. A discussão sobre o lugar e as atitudes da rapariga universitária, traduziu-se num confronto de posições a propósito da condição feminina em Portugal que sobreveio dentro da comunidade estudantil.